GODOI, Vagner. Tecnologia e vanguarda: a noção de progresso. In: IV Congresso em Estética e História da Arte, 2006, São Paulo. Arteconhecimento. São Paulo: MAC-USP, 2006. p 321-2.
palavras-chave: noção de progresso, vanguardas históricas, estética da máquina.
Tecnologia e vanguarda: a noção de progresso
A noção de progresso tecnológico, ligada a uma noção de progresso da humanidade, surgiu no período paleotécnico, dentro do que é comumente entendido como a Revolução Industrial
"Pero el hecho es que en Europa occidental la máquina se había estado desarrollando sin interrupción durante por lo menos siete siglos antes de que se produjeran los cambios dramáticos que acompañaron a la 'revolución industrial' (Munford, 1971, p.21). |
E há três tópicos a serem abordados sobre tais noções:
Em primeiro lugar, a idade da máquina moderna só pode ser compreendida em termos de uma preparação muito mais ampla e diversa, e não como fruto de apenas alguns inventores britânicos do século XVIII. Isto foi mostrado por Lewis Munford através do processo histórico de preparação cultural para a assimilação completa da máquina assim como do estabelecimento dos agentes da mecanização.

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| Fernand Léger: Os jogadores de cartas. (1917) |
A máquina teria invadido nossa civilização em três fases sucessivas; fase que também são planos que se superpõe e se interpenetram: era eotécnica, era paleotécnica e era neotécnica. Com a chegada da assim considerada A Revolução Industrial (a era paleotécnica), os setecentos anos anteriores foram desacreditados como um período carente de qualquer realização significativa. (Munford, 1971, p. 21 e p.172).
Em segundo lugar, a satisfação que o período tinha consigo mesmo - a ponto de se comparar em um nível muito superior, por exemplo, ao da Idade Média - está ligada ao surgimento da noção de progresso, de um mundo que se tornaria mais educado, humano e racional. Essa noção tem origem com o rápido aperfeiçoamento das máquinas; suas mudanças sucessivas davam a impressão de a sociedade estar caminhando para um mundo apenas positivamente modificado; nem é necessário esforçar-se para rebater tal pensamento: as guerras mundiais, os campos de concentração e toda a tecnologia da guerra.
E a guerra, nesse espírito progressista e utópico, será um dos elementos constituintes da noção de vanguarda. Não só devido à origem do termo, que é militar (se os significados nesse domínio são apenas espaciais, na arte irá adquirir um significado temporal não menos forte): o que está em relevo, é que a guerra, seu imaginário, será uma temática constante entre os movimentos da vanguarda histórica, entendida em seus aspectos utópicos de transformação do mundo, e de destruição dos valores tradicionais. Tal guerra foi imaginada como aliada dos movimentos de vanguarda em um sentido fascista pelo futurismo italiano, contra a tradição e a favor de uma Itália soberana sobre todas as nações; e também no sentido de guerrilha comunista, contra os hábitos e modos burgueses de vida.
Em terceiro e último lugar, gostaríamos de sublinhar a relação da noção de progresso com a noção de vanguarda. Como assinalou Munford estar 'fora de moda' é carecer de valor.
"El valor, en la doctrina del progreso, se redujo a un cálculo del tiempo: el valor era de hecho movimiento en el tiempo. El estar pasado de moda o estar 'fuera de tiempo' era carecer de valor. El progreso era el equivalente en historia del movimiento mecánico a través del espacio (...). La máquina era por naturaleza el elemento más progresivo en la nueva economía" (Munford, 1971, p.202). |
Para a doutrina do progresso - e de certa forma para os movimentos de vanguarda - o valor é reduzido a um cálculo de tempo. A opinião generalizada da 'máquina pela máquina', como elemento mais progressivo e inspiração autêntica daquele tempo, e talvez do nosso, explicada pela lógica interna das técnicas, colocam em relevo os novos valores culturais modernistas (e pode ser também uma hipótese para a condição da arte tecnológica de agora, principalmente naqueles casos em que o que é valorado é o grau tecnológico, a contemporaneidade científica, o estado da técnica, apenas).

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| Os prazeres da ferrovia (1831) |
Para Munford o progresso é o equivalente temporal do movimento mecânico através do espaço e este pode ser o mesmo movimento que transforma a noção de vanguarda de significados espaciais na guerra para significados temporais em arte. O progresso esperado e festejado no século XIX animará vários setores da cultura e da economia no século XX: a vanguarda e toda a arte, a moda, o comportamento e a percepção contemporânea sobre a criatividade e a inovação, e de uma maneira aparentemente progressiva e paralela à tecnologia.
Tal fato leva a notar que a noção de uma tecnologia progressiva e de uma sociedade em constante mudança, atingirá, de algum modo, todas as percepções, toda a economia e toda a cultura. Concordamos, portanto, com a aproximação, feita por Jorge Glusberg, entre a noção de vanguarda e a noção de moderno, pois tais noções são de alguma forma equivalentes e partes de um mesmo sintoma cultural.
"El término vanguardia, de significado espacial en lenguaje militar, adquiere en el campo del arte un significado temporal. El arte de vanguardia parte de la actualidad pero se adscribe al futuro. Es anticipatorio o es nada. Niega, por lo tanto, el eterno retorno nietzscheano; cree en el cambio permanente, en la innovación perpetua, en el avance indetenible, en el progreso histórico y en la lucha incesante, porque es sedicioso y transgresor por naturaleza. Convierte la ruptura de la tradición en tradición de la ruptura: he ahí la llamada tradición moderna, dos términos que parecían antitéticos, incompatibles (y acaso lo eran)" (Glusberg, 1993, p.24). |
Seguimos com Glusberg (1993, p.41), retornando a Walter Benjamin (autor bastante utilizado pela 'moda pós-modernista'), no seguinte pensamento: se para Baudelaire o presente, no futuro, converte-se em passado; e se para as vanguardas o presente é futuro em relação ao passado; para Benjamin, o presente só terá futuro somente com o auxílio do passado : o passado e o futuro como problemáticas do presente, um devir.

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| Andy Warhol: Cadeira Elétrica (1965) |
Para Benjamin, o inimigo da modernidade é o novo, quintessência da falsa consciência, cujo incansável agente é a moda. O inimigo da modernidade não seria a mecanização ou a automatização dos meios e processos, artísticos ou não, mas sim a procura desenfreada pelo novo, pela moda, pela busca da 'vanguarda pela vanguarda', (também da 'máquina pela máquina'), que é também uma arte pela arte, de fato uma falsa modernidade.
"Benjamin centra su ataque en la ideología socialdemócrata y en su praxis: ambas han sido determinadas por un concepto de progreso que no se atiene a la realidad y asume pretensiones dogmáticas. (...) Así la representación de tal progreso del género humano es inseparable de la representación del desarrollo de la historia a lo largo de un tiempo homogéneo y vacío. Pero la historia debe ser objeto de una construcción cuyo lugar no está constituido por un tiempo homogéneo y vacío sino por un tiempo pleno, un tiempo-ahora (Jetztzeit)" (Glusberg, 1993, p.42). |
E parece que esse também é pensamento de Duchamp, que introduziu a máquina e sua reprodutibilidade no terreno da arte; para Glusberg, o artista, um pós-modernista avant la lettre, estabelece e soluciona, à sua maneira, as encruzilhadas intuídas por Benjamin , não só por causa de suas maquininhas irônicas, mas também por seu silêncio, por sua arte não-retiniana e toda sua fantástica e variada invenção do que poderia 'ser arte', através de tudo aquilo que poderia 'não ser arte'.
"Duchamp: "El arte no es una cuestión de progreso. El progreso no es sino una pretensión exorbitante por parte nuestra. Por ejemplo, no hubo progreso de Corot sobre Fidias. Y abstracto o naturalista sólo son maneras de hablar a la moda. Un cuadro abstracto puede perfectamente no parecerlo dentro de cincuenta años" (apud Glusberg, 1993, p.73) |
A idéia de vanguarda, próxima à noção de progresso da humanidade, em relação com o avanço das tecnologias, e que faz parte também da utopia da arquitetura e do desenho industrial, provenientes da Bauhaus, e do Estilo Internacional, cujo ápice de aplicação se dará nos anos 50, é encontrada de outra forma em Pierre Francastel (1976, p.285): para o autor, a arte de vanguarda é tanto o campo de debates de sua época como possui a função de adaptar as coletividades humanas às condições tecnológicas e econômicas surgidas da ciência ocidental.

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| Takis: Desenho para "Homenagem a Marcel Duchamp" (1968) |
A noção de vanguarda foi pela primeira vez aplicada ao neo-impressionismo de Seurat, Signac e Cross. O movimento propunha-se avançar esteticamente em relação ao impressionismo. A aventura dos impressionistas, e de seus sucessores e adversários, deu-se em um marco político, econômico e social cujas características o historiador Geoffrey Bruun chama de a Idade Técnica, que seria uma segunda revolução industrial iniciada com o último quarto do século XIX; como vimos anteriormente, a fase que inicia com tal marco foi denominada de outra maneira, de era neotécnica, marcada pela união da técnica com a ciência. Segundo Glusberg (1993, p.14), o vertiginoso desenvolvimento deste período iniciado em 1871 é o da modernização, ou seja, do progresso material; este novo termo vem se juntar aos outros termos da série: moderno, modernidade e modernismo.
À luz da noção de progresso, de modernização, em relação com as vanguardas artísticas, com o modernismo, pode-se pensar em uma definição para a modernidade como sendo a época na qual o fato de ser moderno converte-se em valor determinante - esta é, segundo Glusberg (1993, p.248), uma definição vastamente aceita de modernidade; o autor cita o exemplo do artista como gênio criador do novo e do original que a partir do século XV passa a ser um valor e um motivo de culto. O culto do novo e do original em arte, vincula-se com uma perspectiva mais ampla que, como no Iluminismo, enfoca a história humana como um progressivo caminho em direção à emancipação, como a realização do homem ideal.
"Se a máquina é o símbolo, o 'monumento' de uma nova era, é porque a civilização intermédia, apesar dos conflitos, da falta de equilíbrio, conseguiu chegar a um novo ideal aglutinador, o trabalho. Seus pólos são o industrialismo e o mercantilismo; seus ideais, a riqueza, a máxima produção, a expansão comercial, que conseguiram reunir todas as forjas em torno de uma única vontade, a do capital. Uma vez que o princípio da utilidade é o motivo dominante dessa civilização que se encaminha a largos passos para o estágio superior, seu testemunho mais fiel será o 'monumento do trabalho', isto é, a máquina, construção nova em relação ao passado, forjada numa nova matéria, o ferro. E se outros símbolos tangíveis tiverem que existir, eles não serão mais o templo ou o palácio, e sim o Grande Magazine, - 'catedral da civilização mercantil', a Cidade-Oficina, a Bolsa, novo campo de batalha" (Fabris, 1987, p.32). |
O futurismo, ainda que, num primeiro momento, carregado de idéias impressionistas, simbolistas e românticas, e mesmo não sendo o primeiro a utilizar a temática da máquina e do ambiente moderno propiciado por ela, fará uma contribuição essencial para os vários planos e desdobramentos vanguardistas surgidos. São bem claras as razões desses ideais progressistas e vanguardistas do futurismo . Na interpretação de Annateresa Fabris, a relação do primeiro manifesto futurista de 1909 com a sua época, pode ser vista na ligação imediata, controversa, às vezes muito aparente, entre a percepção da máquina e sua inclusão na vida cotidiana.
A existência desses signos, próprios da modernização, serão apropriados pelo movimento, de modo que o anseio por progresso material, transfere-se para o domínio estético. Talvez a existência dessa 'mecanolatria' e dessa 'modernolatria', não sejam apenas conseqüências das mudanças rápidas ocorridas nos modos de produção, através da tecnologia; o que mais importa para a construção desse imaginário é a existência da noção de progresso, do anseio coletivo pelo progresso, realmente um novo mito.

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| Douglas Davis: Números (1970) |
As noções de manifesto e movimento artístico, surgidas das vanguardas históricas, inserem-se no contexto artístico do século XX, e também nessa concepção de progresso artístico, de culto ao novo e ao original - como se a noção de reprodutibilidade já não tornasse inválidos o único e o original. Isso será válido se pensarmos na idéia de movimento artístico como uma demarcação de idéias comuns, com seus cânones, utopias, divergências com outros movimentos, diferenciais de inovação e seus pontos de vista centrais. Essa idéia, próxima da idéia de pioneirismo artístico e de sua exacerbada importância, é de fato compreendida quando pensada no contexto dos manifestos artísticos: eram textos que colocavam a público as características e posições do movimento, múltiplos, entre si, em sua variedade, mas únicos, em si, em sua visão central de mundo.
O pós-moderno em arte nasce com o fim da aplicabilidade da noção de vanguarda para a produção artística, assim como no discurso morre qualquer possibilidade de uma única teoria, de totalização das narrativas. O pós-modernismo assemelhar-se-ia em vários aspectos formais e conceituais com o modernismo, a não ser pela tecnologia e seu desenvolvimento, pela mudança dos novos meios empregados. A diferença fundamental entre a arte moderna e a arte pós-moderna é a ineficácia ou invalidade da noção de vanguarda tanto na leitura como na produção das obras. Dessa maneira também desaparecem ou perdem sua importância as noções de manifesto e de movimento artístico; o que existe são artistas trabalhando sozinhos, com sua rede sígnica de estilos conectáveis, menos caracterizáveis - não se pode colocá-los como sendo desse ou daquele movimento; e dentro de sua própria arte encontraremos signos que podem ser ou não novos em relação à arte anterior, e estes signos podem dialogar ou não com a arte que é produzida agora. O moderno era heterogêneo também, mas só enquanto existia a diversidade de movimentos, grupos e manifestos.

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| Morton Shamberg:Deus (1918) |
O que acreditamos permanecer, fundamentalmente, reside na idéia de uma constante interferência da máquina na produção artística, com suas conseqüentes mudanças de percepção, de natureza da arte, do pensamento sobre ela e, até mesmo, em termos de sua refuncionalização. O que se equivoca agora é a concepção modernista de vanguarda, que está próxima da idéia de progresso, e é caracterizada pelos pontos de vista únicos e centrais presentes nas noções de manifesto e de movimento: com isso surgem ou são reafirmados outras noções, como de diluição, conexão, hibridização, jogos de linguagem, complexificação, multiplicidades, polifonia, heterogeneidade.
Bibliografia
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política. Obras escolhidas, v I. São Paulo: Brasiliense, 1985.
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix. O que é a filosofia. Rio de Janeiro: ed. 34, 1993.
FABRIS, Annateresa. Futurismo: uma poética da modernidade. São Paulo:Perspectiva, 1987.
FRANCASTEL, Pierre. Arte y técnica en los siglos XIX y XX. Valencia: Fomento de Cultura, 1976.
GLUSBERG, Jorge (1987) A arte da performance. São Paulo: Perspectiva. 145 p.
MUNFORD, Lewis. Técnica y civilización. Madri: Alianza, 1971.
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